Construímos sonhos. Criamos expectativas elevadas acima da realidade. Vivemos em pequenos mundos individuais, na realidade que conhecemos. Pequenos mundos construídos por nós. Eventualmente, acabamos por baixar um pouco a guarda. Revelamos pequenas partes dos nossos pequenos mundos: a sua banda sonora, as cores com que o pintamos, pequenas coisas com grande relevância para nós. E um dia, baixamos totalmente a guarda. Revelamos os mistérios, os segredos, as inseguranças, as desilusões. Tudo aquilo que tão conscientemente guardamos connosco, porque o medo se sobrepõe à possibilidade de sermos felizes. O medo de não sermos bons o suficiente. O medo de desiludirmos alguém. O medo de não correspondermos às expectativas que o outro tem de nós. O medo de errar, o medo das consequências dos nossos erros. O medo de fazermos alguém sentir a dor que um dia vivemos. O medo de carregar a culpa de algo que não queríamos que acontecesse. O medo de falhar. O medo de que o nosso melhor não chegue. O medo de sermos felizes, porque a felicidade não dura. Escolhemos então não arriscar, não darmos a nós próprios a possibilidade de sermos felizes, sabendo que a felicidade total é irreal, tal coisa não existe. Desperdiçamos, então, a oportunidade de sermos felizes, para não sentirmos mais dor. E não será que é aí que reside toda a dor, no desperdício dessa oportunidade? Mas será preferível conhecermos a felicidade, mesmo sabendo que iremos sofrer eventualmente, ou escolher não sermos felizes para não voltarmos a sofrer?
Não será que a vida é mesmo isso? Sermos temporariamente felizes e experienciarmos esporadicamente episódios de infelicidade? Ou será que deveremos conformarmo-nos, não viver muito tristes, nem demasiado felizes. Será que a vida é isso?
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