sexta-feira, 16 de agosto de 2013



Abraço a solidão. O silêncio não me perturba, nem tão pouco me incomoda, apenas me deixa confortável, a sós com os meus pensamentos. O silêncio acalma-me, tranquiliza-me. Chega suavemente e não vai embora rapidamente, permanece aqui. E aqui me encontro, nesta solidão silenciosa, onde estou apenas eu comigo própria, e que ninguém consegue penetrar. Não como se alguém tentasse, porque tal não acontece, mas eu não permito também, isto porque aqui ninguém consegue magoar-me de qualquer jeito que seja. 
Mas se vens por bem, podes chegar-te mais perto. Aproxima-te dos muros que me rodeiam, toca-os suavemente, sente as cicatrizes que os atravessam. Não, não te aproximes tanto. Eles irão empurrar-te, expulsar-te de perto de mim, sem que eu tenha consciência de tal. Apenas permanece onde estás. Não precisas de dizer nada, produzir qualquer discurso direccionado a mim, eu sei o que pensas, sei o que estás a pensar, não precisas dizer nada, não quero ouvir mentiras. Irei conhecer-te de outra forma, porque espreitei e vi que de muros não estavas rodeado, e percebo assim que tu és quem transpareces ser. Abri um pequeno portão para ti, entra, mas cuidadosamente. Explora primeiro os recantos obscuros, vê do que são feitos. Não tenhas medo, eu continuo aqui para te proteger, permaneço aqui. Agora, a escolha é inteiramente tua: dois caminhos se apresentam e tu escolhes. Podes voltar a sair e fugir, ninguém te irá impedir, ou poderás ficar e explorar o resto que escondo, a parte iluminada de mim, as coisas boas portanto. Mas se os recantos obscuros te assustaram, talvez devesses ir. Mas repito, a escolha é tua. Quero que fiques, mas não te posso pressionar a tal. Entende apenas o que quero dizer.
(...)
Mas não foste. Escolheste ficar. Como poderei agradecer-te? Entra, exploremos juntos. Conheceremos os aspectos positivos. Caminhemos de mãos dadas pelo interior dos meus muros. Percorre a minha alma, assim to permito. Mas primeiro, senta-te nesse banco, eu irei buscar alguns livros e álbuns e um bom chocolate quente que nos aqueça os corações e nos permita ver tudo de bom de uma forma melhor. Não vás, peço-te, darei-te essa oportunidade mas quero que a desperdices, por favor, fica aqui comigo, não irei demorar. 
Ou então vem comigo. Vem comigo e traremos juntos os livros e álbuns que tanto te queria mostrar. Depois, caminharemos juntos em direcção ao pequeno banco de jardim. Deixemos as nossas almas fundirem-se numa só e permitamos aos nossos corações sentir algo de bom novamente. Sê meu e eu serei tua.

Blogs que recomendo:

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Nós.




Quero descobrir-te. Encontrar-te num banco de jardim desprovido de pessoas que não nós, num concerto da tua banda favorita, numa livraria repleta de palavras soltas, numa rua cheia de pessoas mas vazia de almas. Quero encontrar-te num café, espero que estejas a ler o livro que sempre quis ler, aquele que diz tanto sobre ti, que traduz por palavras o que o teu coração sente e os pensamentos que a tua mente elabora, mas que tu és incapaz de revelar. Também gostaria de te encontrar num parque da cidade, a observar os prédios altos que o rodeiam, a desenhar algo que revele a beleza deles. Espero que sejas capaz de captar essa mesma beleza, observa os detalhes cuidadosamente e elabora algo de que te orgulhes. E eu irei sentar-me ao teu lado, a contemplar a arte que criaste. Irei louvá-la. Não irei dizer nada. Mantém-te quieto e calado, também. Aproveitemos o silêncio que é nosso, aquele silêncio constrangedor, que envolve as nossas expectativas, os nossos sonhos, os nossos medos, o que sentimos. Deixemos que ele fale por nós, que diga o que temos medo de dizer. Deixemos cair os muros. Falaremos, então, durante horas. Sobre música, sobre livros, sobre as nossas visões do Mundo, sobre as nossas opiniões, sobre arte. Sigamos caminhos diferentes. Reencontre-mo-nos. Repitamos tudo. E nascerá algo nosso, não necessariamente amor, mas algo que nos permita ser felizes um com o outro. Talvez amizade. Ou algo como uma relação estranha, que não é rotulada, apenas é o que é. Deixemos cair totalmente, então, os muros que nos protegem. Baixemos as guardas. Depositemos a nossa segurança no outro. Adoremo-nos. 


Onde estás? 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Escolhas.



Viajamos pelos dias. Vagueamos por sítios desconhecidos no interior das nossas mentes. Alguns deles obscuros, onde segredos e mistérios se escondem, onde estão as origens de todas as cicatrizes que possuímos, outros onde a beleza surge nas mais diversas formas. Surge nos cheiros dos livros novos, no conforto do sofá, no estar à lareira envolta numa manta, no vento que ondula o cabelo, no chocolate quente que aquece o coração. Surge nas pequenas coisas, nos pequenos detalhes. A beleza está em tudo. Está na música que tanto adoramos e que nos faz sentir compreendidos. Está no livro que diz aquilo que não conseguimos expressar. Está nas palavras trocadas com pessoas que adoramos. Está em tudo o que torna os nossos dias melhores. 
Mas nem todos conseguem percepcioná-la. Nem todos a reconhecem. Apenas os que amam a arte a reconhecem e a conseguem percepcionar. Porque arte é tudo isto. Está nas palavras, nos sentimentos, está em tudo. 
Mas o lado obscuro da nossa mente pode sobrepor-se a este. Cabe-nos a cada um de nós evitá-lo. Significa isto que é a nossa escolha olhar para algo mau e transformá-lo em algo bom ou, pelo contrário, lamentarmos o sucedido. Sofrer é inevitável, mas todos podemos decidir o que fazer a respeito disso. Todos escolhemos a forma como reagimos. Daí que saber escolher seja tão importante. São as nossas decisões que decidem o nosso futuro. Não há destino, nem coincidências. São as nossas escolhas que determinam o que virá a acontecer, em parte. Daí ser tão importante descobrirmo-nos, sabermos quem somos, e sermos capazes de decidir por nós. Se há algo que admiro em alguém é firmeza. É não se deixar levar por as opiniões alheias. É decidir por si, é saber fazê-lo. É manter as suas opiniões, mesmo que ninguém concorde com elas.
Vivamos então o hoje, decidamos entre as opções que nos são apresentadas, e encarreguemo-nos, assim, de escolher os próximos dias. Celebremos as boas decisões, aceitamos as más e sigamos em frente.

sábado, 10 de agosto de 2013

(De)construct.

Construímos sonhos. Criamos expectativas elevadas acima da realidade. Vivemos em pequenos mundos individuais, na realidade que conhecemos. Pequenos mundos construídos por nós. Eventualmente, acabamos por baixar um pouco a guarda. Revelamos pequenas partes dos nossos pequenos mundos: a sua banda sonora, as cores com que o pintamos, pequenas coisas com grande relevância para nós. E um dia, baixamos totalmente a guarda. Revelamos os mistérios, os segredos, as inseguranças, as desilusões. Tudo aquilo que tão conscientemente guardamos connosco, porque o medo se sobrepõe à possibilidade de sermos felizes. O medo de não sermos bons o suficiente. O medo de desiludirmos alguém. O medo de não correspondermos às expectativas que o outro tem de nós. O medo de errar, o medo das consequências dos nossos erros. O medo de fazermos alguém sentir a dor que um dia vivemos. O medo de carregar a culpa de algo que não queríamos que acontecesse. O medo de falhar. O medo de que o nosso melhor não chegue. O medo de sermos felizes, porque a felicidade não dura. Escolhemos então não arriscar, não darmos a nós próprios a possibilidade de sermos felizes, sabendo que a felicidade total é irreal, tal coisa não existe. Desperdiçamos, então, a oportunidade de sermos felizes, para não sentirmos mais dor. E não será que é aí que reside toda a dor, no desperdício dessa oportunidade? Mas será preferível conhecermos a felicidade, mesmo sabendo que iremos sofrer eventualmente, ou escolher não sermos felizes para não voltarmos a sofrer? 
Não será que a vida é mesmo isso? Sermos temporariamente felizes e experienciarmos esporadicamente episódios de infelicidade? Ou será que deveremos conformarmo-nos, não viver muito tristes, nem demasiado felizes. Será que a vida é isso? 

domingo, 4 de agosto de 2013

Excerto do livro "Para Ti" de Luísa Castel-Branco

"Que fazer? 

Para onde partiram os amigos, os amantes, os abraços de carinho, os risos? Para onde foram os sonhos, todas as promessas depositadas no nosso colo quando éramos tão inocentes, as esperanças adoçadas nos anos verdes pelas histórias mágicas dos príncipes encantados do «para sempre viveram felizes»? Onde ficaram as noites mágicas de palavras sussurradas ao ouvido, com um céu estrelado e o algodão-doce da feira, as rifas, as farturas que lambuzavam os dedos e derretiam o coração? Por que caminhos ínvios, negros e dispersos nos perdemos todos, como se hoje estivéssemos aqui numa terra desconhecida, rodeados de gente desconhecida, sem raízes, sem memórias? As esperanças rasgadas e deitadas ao vento, e o vento leva as palavras para terras onde ninguém as entende e, por isso, estamos rodeados deste silêncio ensurdecedor. Percorremos os dias repetindo os gestos, mas, quando deitamos a cabeça na almofada, a dor no corpo tolhe-nos, a solidão tem cheiro e peso, e nada nos vale, nem quando outro corpo dorme ao nosso lado. Que fazer com o resto dos dias, com o resto das ilusões manchadas de rugas, de desilusões, da longínqua recordação do que um dia foi?"